segunda-feira, 26 de outubro de 2026

 

Viva a Democracia

A democracia é uma das maiores conquistas de uma sociedade que acredita na liberdade, na justiça e na soberania popular. Mais do que o direito de votar, ela representa a possibilidade de escolher nossos representantes, expressar opiniões, defender ideias e, sobretudo, respeitar a vontade da maioria, sem retirar da minoria o direito de discordar. Em uma democracia verdadeira, vencer e perder fazem parte do mesmo processo, e aceitar o resultado das urnas é tão importante quanto participar das eleições.

Neste domingo, 25 de outubro, o Brasil viveu mais um momento decisivo de sua história política, marcado pela disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição, e seu adversário, representante da corrente política ligada ao bolsonarismo. De um lado, a defesa de pautas como a democracia, a soberania nacional e a continuidade de um projeto de governo; do outro, uma visão política que, na avaliação de seus críticos, deixa dúvidas sobre suas propostas para o país e sobre a maneira como compreende as instituições democráticas. Entre as preocupações levantadas nesse debate está a relação do Brasil com os Estados Unidos e o risco de que interesses estrangeiros se sobreponham à autonomia nacional.

O resultado eleitoral, conforme apresentado neste cenário, deu a Lula uma vantagem superior a quatro milhões de votos. Essa diferença expressiva traduz a escolha feita pelos eleitores e deve ser respeitada por todos, independentemente de suas preferências políticas. Afinal, em uma democracia, o voto não pertence a um partido, a uma família ou a um grupo econômico: pertence ao cidadão, que tem o direito de decidir os rumos do país.

Isso não significa que o Brasil esteja livre de divisões. Ao contrário, a polarização política continua sendo um dos grandes desafios nacionais. De um lado, há setores identificados com o bolsonarismo e com posições conservadoras; de outro, cidadãos que defendem políticas sociais, maior participação do Estado na redução das desigualdades e a preservação das instituições democráticas. Também existem brasileiros que não se identificam integralmente com nenhum desses campos. O desafio é reconhecer essa diversidade sem transformar adversários políticos em inimigos.

É evidente que a sociedade brasileira é marcada por profundas desigualdades econômicas e sociais. Por isso, é necessário discutir a quem as políticas públicas beneficiam, quais interesses representam e quais resultados produzem para a população. A crítica à concentração de renda e ao poder das elites econômicas faz parte desse debate. Entretanto, qualquer avaliação precisa se apoiar em propostas, decisões e resultados concretos, e não apenas em rótulos ou generalizações.

Após uma eleição, é natural que os vencedores comemorem e que os derrotados sintam frustração. A democracia não exige que todos concordem com o resultado, tampouco proíbe questionamentos legítimos. O que ela exige é que eventuais contestações sejam fundamentadas, apresentadas pelos meios legais e acompanhadas de respeito às instituições responsáveis pela apuração e validação dos votos.

Recorrer à Justiça é um direito de qualquer candidato, desde que existam fundamentos jurídicos para isso. O que não se pode admitir é a tentativa de deslegitimar o processo eleitoral sem provas ou de substituir a vontade popular por pressões, ameaças ou aventuras autoritárias. Quem disputa uma eleição deve compreender que a candidatura traz consigo não apenas a possibilidade de vencer, mas também a obrigação democrática de saber perder.

O Brasil conhece muito bem os efeitos da ausência de democracia. Durante o regime militar, iniciado em 1964 e encerrado em 1985, o país atravessou um período marcado pela restrição das liberdades políticas, pela censura e pela perseguição a opositores. A redemocratização representou a recuperação de direitos fundamentais e a reconstrução das instituições. A Constituição Federal de 1988 consolidou princípios essenciais, entre eles a soberania popular, o pluralismo político e a realização de eleições periódicas.

Por isso, não podemos tratar a democracia como uma conquista definitiva, que dispensa cuidados. Ela precisa ser defendida todos os dias, por meio da participação cidadã, da liberdade de imprensa, da independência dos Poderes e do respeito às regras constitucionais. A história recente também nos deixou um alerta com os ataques às sedes dos Três Poderes, em Brasília, em 8 de janeiro de 2023. A depredação do patrimônio público e as tentativas de intimidar as instituições demonstraram que a democracia pode ser ameaçada quando o inconformismo ultrapassa os limites da lei.

Que esse episódio jamais se repita! O Brasil não precisa de golpes, de violência política nem de destruição do patrimônio que pertence a todos. Precisa de diálogo, responsabilidade e compromisso com o futuro. As divergências devem ser resolvidas pelo debate público, pelo voto e pelos instrumentos legais, e não pela força.

Da mesma forma, denúncias envolvendo autoridades e integrantes de famílias políticas precisam ser apuradas com seriedade, imparcialidade e respeito ao devido processo legal. Ninguém deve ser considerado culpado apenas por acusações, mas ninguém pode estar acima da lei por ocupar um cargo público ou pertencer a uma família influente. Se houver provas, cabe à Justiça examiná-las e decidir conforme a legislação, assegurando a todos o direito de defesa. A igualdade perante a lei é um dos pilares de qualquer Estado democrático.

Ao presidente eleito, por sua vez, cabe uma grande responsabilidade. A vitória nas urnas não representa um cheque em branco, mas um compromisso com a população. O novo mandato deverá ser marcado por resultados concretos na educação, na saúde, na segurança pública, na geração de empregos e no combate à pobreza. Também será necessário governar para todos os brasileiros, inclusive para aqueles que votaram no adversário e que continuarão fiscalizando suas decisões.

A trajetória política de Lula, que disputou pela primeira vez a Presidência da República em 1989, ocupa um lugar relevante na história contemporânea do Brasil. Sua carreira foi marcada por vitórias, derrotas, controvérsias e mudanças no cenário nacional. Com a confirmação da quarta eleição presidencial, esse feito representará um capítulo singular dessa trajetória. Mas a dimensão histórica de um governo não será determinada apenas pelo número de vitórias eleitorais, e sim pelas transformações realizadas, pelos compromissos cumpridos e pelos efeitos de suas políticas sobre a vida dos brasileiros.

Ao final, é preciso compreender que a democracia não pertence exclusivamente a quem vence. Ela pertence a todos: aos que comemoram, aos que lamentam, aos que concordam e aos que discordam. O verdadeiro espírito democrático consiste em reconhecer que nenhum governante é dono do país e que nenhum partido tem o direito de se apropriar da vontade popular.

Nunca é demais repetir: em uma eleição democrática, o povo escolhe seus representantes por meio do voto, e o resultado deve ser respeitado conforme as regras legais. Quem vence recebe a responsabilidade de governar; quem perde tem o direito de fazer oposição, fiscalizar e apresentar novas propostas. Ambos têm o dever de preservar as instituições e de respeitar os cidadãos.

Que o Brasil possa superar suas divisões sem abrir mão de suas diferenças. Que a política volte a ser compreendida como instrumento de transformação social, e não como motivo para o ódio entre brasileiros. Que a soberania nacional, a liberdade, a justiça e a igualdade de direitos sejam compromissos permanentes de todos os que exercem funções públicas.

Porque a democracia não se resume ao dia da eleição. Ela se fortalece todos os dias, quando respeitamos a Constituição, defendemos a liberdade e reconhecemos que o poder emana do povo.

Viva a democracia! Viva a soberania popular! Viva o Brasil!

PROFESSOR JOÃO LEITE